- de acordar na cama da minha Mãe, ao fim-de-semana, bem cedinho, e de ela começar a fazer caretas monstruosas e vozes, para me meter medo (ela sempre gostou de meter medo e pregar sustos), e de eu começar a ficar com aquele nervoso histérico, entre a adrenalina e a piada e de começar a falar alto e a rir e ela me dizer «olha as tuas irmãs, elas estão a dormir!»;
- de ser pequenina e de ir tomar o pequeno-almoço com a minha Mãe, sempre uma torrada em pão de forma, num café que tinha um papel de parede escuro;
- de quando a minha irmã Margarida me agarrava, as duas no cadeirão da sala, com ela a encher-me de beijos que fazem cócegas e arrepios;
- de arreliar a minha irmã Inês, quando me punha de gatas e ia desde o corredor até à sala, e tentava ir para trás da mesa para lhe pregar sustos, e ela apanhava-me sempre, às vezes fingia que não me via, e quando eu estava quase a conseguir dizia «já te vi.»;
- de imitar o Slash a tocar guitarra no meio de uma Igreja;
- de estar no Monte dos meus tios e de me perder no meio das vinhas, ir ver as vacas, e andar pela casa a descobrir brincadeiras novas, das formigas grandes que picavam e de apanhar figos;
- de brincar às escolas, escrever com giz na parede, distribuir folhas a alunos invisíveis e de chatear a minha Mãe para me comprar um livro de ponto, gritar com eles e dar-lhes notas;
- de brincar às lojas dos tecidos, imaginar um rolo enorme de tecido na minha mão, cortá-lo, pôr num saco e dar sugestões a clientes que não se viam;
- de brincar aos médicos, em que eu era a recepcionista do consultório e marcava consultas com os nomes completos inventados dos pacientes;
- fazer desenhos e de, por cima de cada pessoa desenhada, escrever o seu nome imaginário, a sua idade, data de nascimento e signo;
- de ouvir o «Oh Carol» de manhã cedo, quando a minha Mãe estava na cozinha;
- da casa dos meus Avós Maternos, as escadas lá para cima, da estufa onde me deitava na rede, do terraço que tinha um canto onde me escondia, do quarto da Tia-Avó cheio de livros onde ela não gostava que entrássemos;
- de dormir nessa mesma casa, com os meus primos e tios, tudo acampado na sala, de manhã acordar e tomar o pequeno almoço deitados a ver os desenhos, da brincadeira pegada;
- dos Natais nessa mesma casa, os atrasos do costume, a mesa recheada de comida, tudo a falar, a cantar, as irmãs e primas mais velhas na conversa, a pequenada lá em cima, o Pai Natal a chegar e ia tudo lá para cima para não o vermos, da malta a comer sentada nas escadas, porque quando somos uns 28 primos direitos não cabe tudo à mesa;
- de ser a única que à terça feira, na «Escolinha», comia o peixe cozido e ainda pedia para repetir;
- das «conversas de deus» que tinha com a minha Tia Madalena, em que questionava muita coisa e fazia as mais diversas suposições;
- de pintar gesso com a minha Mãe,
- de passar férias em Évora, em casa dos primos, de fazer filmes de terror, de brincar aos mongolóides com o meu primo Hugo, aos padres pedófilos (ahahah!), de fazer videoclips e muitas outras coisas;
- de ir jogar Sega Saturn para casa de uma amiga, jogos que metiam medo e nós baixávamos os estores para dar ambiente à coisa;
- de ir para Olhão, em casa dos meus tios e de apanhar gafanhotos, ver os passarinhos nas gaiolas enormes, comer bolo de fubá;
- de brincar aos zombies nos intervalos das aulas, na casa de banho da escola;
- do amor platónico que tive durante algum tempo pelo Chico, que passava por mim e me chamava «juba de leão»;
- dos primeiros anos em que fui para Portimão passar férias com uma amiga;
- dos jantares que a malta, no 9º ano, fazia no restaurante chinês e de num desses jantares, combinarmos levar todas as nossas primeiras botas de salto alto (3 centímetros);
- de fazer porcaria engraçada nas aulas de matemática, físico-química, francês e educação visual;
- dos torneios de futebol femininos inter-turmas;
- do dia em que eu e uma amiga fomos para a rua numa aula pela primeira vez e ainda perguntámos «é para vir na 2ª hora?»;
- do dia em que soube que tinha ganho um concurso de poesia;
- da minha gata Zulu, que morreu com 18 anos;
- das cartas que escrevia à minha mãe a pedinchar-lhe coisas (era muito argumentativa, por sinal);
- dos recados que deixávamos umas às outras no espelho da casa de banho, como «boa sorte para o teste, vai correr bem!»;
- de não cabermos todas no sofá...;
- de nos levantarmos do sofá e dizermos «eu sou aqui!»;
- da adrenalina que foi roubar um livro de quadradinhos da Mónica e do Cebolinha;
- das horas de almoço e tardes passadas em casa de uma amiga, em que ouvíamos músicas para chorar e jogávamos aos papelinhos, em que fazíamos perguntas e cada papelinho tinha uma resposta que tirávamos à sorte;
- de ver o Grease, Dirty Dancing e História Interminável, vezes sem fim...;
- de imaginar que era a Cher ou a Tina Turner e dar concertos na minha sala, a fazer playback, para uma plateia que não existia;
- de dançar de pijama em casa, sozinha;
- da minha vizinha Tátá, a quem deixava cartas no correio e que pendurava sacos que davam para a nossa janela da cozinha, com doces e guloseimas;
- dos tempos em que calçava os sapatos da minha Mãe e fazia uma chinfrineira desgraçada pela casa e elas me diziam «olha que o Sr. Pires (vizinho de baixo) vem aí!!»;
- de dormir em casa da minha Tia Menita, e de ter medo do quarto dos arrumos dela, de brincar com as bonecas de pau preto, de ter medo do gorila de peluche da minha prima, de calçar os sapatos da minha Tia e de mexer no móvel das gavetas, e abri-las e fechá-las vezes sem fim, enquanto vendia bilhetes de autocarro;
- de me juntar com as minhas amigas, encostadas ao muro da escola, com uma lista de todos os rapazes que conhecíamos da escola, e de cada uma lhes dar uma nota conforme as características «simpatia, giro, corpo, inteligência...»
- de ir de 23 ter com a minha Mãe ao trabalho, e de uma vez adormecer e acordar e perguntar a uma senhora, para me orientar «já passámos as amoreiras??»;
- de brincar no trabalho da minha Mãe e de ligar a uma colega dela, a querida Mabel, e de ela me dar trela enquanto eu falava do meu marido e das dores de cabeça que ele me dava;
- de colar pensos higinénicos aos meus «nenucos» a fingir que eram fraldas;
- de coisas que não me lembro, mas que me contam, como perguntar pelo Pai à minha Mãe, e dizer-me que estava no céu e eu perguntar se no céu havia telefone;
- das minhas irmãs me dizerem que eu era filha da Deolinda (uma senhora que vivia uns prédios ao lado do nosso, bêbeda, que apanhava do marido) ou que tinha sido encontrada no caixote do lixo;
- do postal colado no quarto das minhas irmãs que dizia «Cuidado... mulheres à beira de um ataque de nervos!»;
- de jogar raquetes com a minha Mãe, sendo que ela jogava sentada na sua cadeira;
- da Praia do Alemão, no Vau;
- de achar que ia ser dançarina e bailarina (cheguei a ligar para o Conservatório de Dança), depois achar que ia ser professora, jornalista e ainda, decoradora de interiores (não, não era tudo ao mesmo tempo);
- de ser hiper-mega chata para os namorados das minhas irmãs;
- de ter fugido para o Algarve com uma amiga, no autocarro das sete da manhã, em que levávamos uma mochila com uma toalha e ameixas (não tenho saudades do que aconteceu quando voltámos!!);
- da professora de história do 6º ano, que me pedia sempre para ler, porque dizia que tinha uma voz muito bonita;
- da excitação que era as peças de Natal na primária;
- de inventar mil e uma desculpas para não ir às aulas de educação física quando envolvia ginástica;
- do meu 19,5 no primeiro teste de filosofia;
- de me vestir com collants berrantes, azuis turquesa, rosa choque, verde alface, calções de ganga largos e ténis, fitas no cabelo e fazer os piercings nessa altura;
- de passar para as camisas e sapatos de vela depois, e ficar com os piercings;
- de ter as dread-locks no rabo de cavalo;
- do caminho a pé para a escola;
- de gritar e cantar a chorar «Só eu sei, porque não fico em casa», quando o SCP foi campeão;
- de ver os jogos da selecção em casa do Mike;
- da esplanada amarela da FCSH, em que quando davámos por nós, uma mesa tinha à volta dez cadeiras;
- dos momentos em que sabemos que fizemos um amigo;
- de achar que acreditava no amor e de que era para sempre.
...